domingo, 7 de março de 2010

Os últimos da mesa (a infância é cinza).
































82, 60, 10. Vovô, papai e eu.
Uma escadinha de idades, com esse último degrau quase inalcançável que só se salva pela memória boa da minha infância.
Lembro de estarmos todos ali, na Paraíba, numa cidadezinha mixuruca, Pitimbu.
Lembro de viver passando ali os verões, feriados, feriadões, imprensados e finais de semana, sempre no mesmo caminho que a estrada levava, e com minha família apelidando as cidades por suas estórias, besteiras antigas nunca confirmadas, ou por um amigo de um amigo que passou por lá trezentos anos atrás e soube tudo in situ.
Foi por aquelas terras e naqueles tempos, passando desde canaviais pernambucanos ao verde com barro da costa paraibana, que senti o misticismo canavieiro que só Zé Lins saberia narrar. Zé Lins e minha família, óbvio.
Se de um lado eu tinha um Cavalcante alagoano sem “i” e com “e”, que atormenta todos os meus documentos até hoje, do outro, aparecia um Rocha Lima, que desconfio judeu, mas não consigo entender que diabos eles foram fazer em Quipapá, cidade de meu outro avô – o paterno.
Desde que me dou por gente, escuto o mesmo comentário quando passamos justo em um vilarejo antecessor a minha praia paraibana, cuja maior distração é tentar descobrir em um jogo dos 7 erros impossível, se alguma coisa mudou nos últimos 15 anos.
Em umas das antigas viagens a Pitimbu, quando nem sequer existia asfalto e que casa de praia era barraca de acampamento, ao passar por essa vila com duas igrejas (uma velha, outra nova, coisa típica da preguiça nordestina em demolir), um pato se meteu na frente do carro, e empacou. Não adiantou buzina, ronco de motor, nem berros. O jeito foi jogar a ré e rumar por outro percurso calculado metículo-maliciosamente a 5 passos do pato, que por sua valentia virou em nossas cabeças o mascote local. Uma moradora vendo a cena, alertou o pato com a mesma delicadeza que um cavalo relincha: Sai daí, pato atrevido! Tenho orgulho de contar que fui umas das testemunhas do batizado da cidade. Estavamos oficialmente em “Pato Atrevido”.

Como esquecer que aos 8 e 9 anos o medo de fantasma era muito grande. Tinha medo de passar perto de um cômodo da casa pois havia uma plantinha murcha e que segundo vi em uma reportagem reiterada por minha mãe, era sinal que “alguém do outro lado” rondava a jantar na nossa mesa de jantar. Em família que acredita em espírito, até a natureza colabora na fé.
Mas nas brincadeiras de menino naquela praia de interior, eu e meu irmão nos sujávamos com freqüência e sem pavor, nas longas horas da tarde, jogando-nos desde a beira do muro que cerca o cemitério a um sem fim de carreiras e cambalhotas na areia declive, típica e fofa, afundando nossos pés na meninice e na desordem. Voltando para casa, o resultado era um par de canelas sujas e pretas, sob minha perplexa curiosidade em entender o porquê daquela cor, se a areia pisada era mais bem cinza claro.

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