
Com o peso da sacola de lixo, meu dedo curvou-se ligeiramente.
A letra W desenhada entre os três últimos dedos criava o vazio suficiente para que o aro impreciso e metálico do molho de chaves passasse, nao sem antes arranhar minha pele para logo cair ao chão. Não tardou em chegar aos meus ouvidos a confissão feita a base de tortura que este mesmo chão, recém amanhecido e com uma minúscula lasca a menos, fez.
Ainda era cedo, e tao confuso quanto o cabelo desalinhado que ainda se espreguiçava sobre minha cabeça, andava a própria cabeça em si, se recuperando de não fazer nada durante tantas horas. Não nego a função primordial do sono e muito menos qualquer tese psicoanalítica a respeito. Mas de manhãzinha, recém levantado, qualquer som, torturante ou não, seria recebido com maus modos por meus ouvidos, meu inconsciente e todo o escambau.
Apanhei as chaves e pensei no idiota que sou ao aceitar cotidianamente seu pedido de casamento em meu anelar. Ao ultrapassar a porta, levando comigo a primeira fresta de luz matinal ao corredor comum do prédio, seguia eu ensimesmado andando com a fronte baixa. Por conta do barulho da porta do numero conseguinte ao meu, notei a presença do vizinho que também acabava de deixar seu apartamento. A singular e fraca sombra que o corpo dele projetou no meu campo de vista matutino-depressivo foi a deixa para que as poucas células cerebrais acordadas àquela hora me enviassem uma mensagem unânime.
“Puta que pariu, seres humanos a essa hora, não”.
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