sábado, 8 de maio de 2010

Sêmenótica.


Ventilador de teto. O ventilador de teto. Quem inventou o ventilador de teto? Depois de uma bela de uma trepada, era nisso que ele tinha se fixado. Sua cabeça, depois de gozar, ficava assim, branca, sem pensamentos importantes, à espera. Mas ele se concentrava. Achava que ali naquela mente em branco, qualquer idéia boba poderia se tornar uma forma de arte. Até mesmo um ventilador de teto.

Vinha martelando a idéia de pintar um quadro feito de imagens aleatórias que passassem por sua cabeça depois de foder. O orgasmo para ele era a grande musa, o inspirador da arte mais completa, gerador de tudo, a origem, o ponto de partida de todos e tudo que esses todos pudessem chegar a fazer. Certa vez, na sua obsessão chegou a tal ponto que misturou seu sêmen nas latas de tinta para pôr seus genes em cada uma de suas obras, para contaminá-las de vida. Obras, diga-se de passagem, bastante sui generis.

Ao contrario da sensibilidade que se espera de um artista, ele não admitia interrupções nesses seus momentos de catarse. Nem para conversar, nem fumar um cigarro, nem fazer um carinho. Ele só afagava a si mesmo, seu ego, sua própria tara. Seu pênis, seu pincel. Aquele corpo ao lado que lhe proporcionara a pré-inspiração deixava de existir. Só havia espaço para um artista na cama, e esse era ele.

Cazú, o Cazú como lhe chamava os íntimos - só os íntimos - como manda a gramática, ficava ali debaixo daquele ventilador, que apareceria sem dúvida no próximo quadro, secando seus suores de sexo. Se achava super poderoso, um ser molhado, pingado, pintado por Deus. E não importava quem lhe fizesse gozar, fosse Cláudio, Rebeca, Antonio, ou todos juntos. No orgasmo estava só. Aquela conversa com a inspiração não era uma roda de amigos ou de amantes. Era ele e a explosão do coito.

Nunca havia amado ninguém e muito menos se dedicado a algo ou a alguém mais que a sua própria pretensão artística. Aos 7 anos sua liturgia pictórica já dava mostras do caráter que lhe seguiria o resto da vida. Em um dever escolar, havia desenhado a seus pais nus, com sexos enormes, e ele, com suas mãos de 8 dedos cada – outra característica artística que havia mantido na maturidade – segurando seus órgãos e dando formas finais àquele retrato familiar perturbador, porém de uma acertada noção genealógica.

Cazú sabia de onde vinha.

Um comentário:

  1. Comentario do meu pai:
    DE FATO NÃO SEI SE CHOCADO OU HILARIADO (ACEITE-SE O NEOLOGISMO )MAS RECONHECENDO O INEXPLICAVEL VALOR DAS POUCAS COISAS QUE ME FAZEM GARGALHAR. PERCEBAM A DIFERENÇA ENTRE A DELICADEZA DO RIR OU SORRIR (LEIA-SE MESMO SO RIR E GARGALHAR) FOI ISSO QUE ACONTECEU AO DEGUSTAR SEU TEXTO. ACHO QUE DORMIREI AINDA MELHOR ESTA NOITE.

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