Calígula era o nome dele. Ou melhor, era o nome do filho dele. Calígulazinho. Um amor de menino. Nunca vi mais quieto. O pai, amigo meu, me disse quase em surdina, para que o pirralho não prestasse muita atenção, que necessitava pedir um conselho íntimo. Ih, já vi que vem merda por aí – pensei. Quão certo eu estava. Me chamou pro quartinho pouco ventilado que ele chamava de escritório. Entrei naquela bosta de 2 por 2 e ele afobado ainda fechou a porra da porta. Ok, vamos lá, amigo é pra essas coisas. Ele, Calígula pai, com os olhos baixos foi dizendo envergonhado:
- Cara, preciso te pedir um conselho. Você lembra da morena da minha festa de aniversario do ano passado?
- Porra, Cali, como caralho tu quer que eu esqueça? Aquela maluca quase deu pra festa inteira só com os olhos.
- Exato, essa mesma.
- Sim, mas o que é que tem ela?
- Tô comendo.
- Mentira.
- Juro, porra.
- E aí, o que é que Ju acha disso?
- Ju não sabe, né, idiota.
(Um momento. Deixa eu explicar isso. Ju é a ex, tá.)
Como se de fato fosse um imperador, Calígula deu dois passos pra trás e vi no sorriso de satisfação daquele verdadeiro idiota o resplendor que todo homem sente por ter comido uma gostosa ou posto fogo numa cidade monumental. De uma hora pra outra o sorriso foi embora e voltou a vergonha.
- O negócio é o seguinte. Ela me pediu uma parada meio estranha.
- Como assim, vei? Fio terra?
- Não, cacete, tu é louco é? Ela é gostosa, fode bem, mas também não é pra tanto, né. Aqui só come o verme.
Entendi a metáfora dele e continuei a conversa.
- Então qual a bronca?
- Ela não gostou do meu bilau.
- Como é que é?
- Isso, porra. Meu bilau, ela não curtiu.
- Ok, essa parte eu entendi, só não saquei como vou te dar conselho pra isso.
- Peraê...calma, porra, deixa eu explicar. Ela quer que eu faça fimose.
- Rsrsrsrs.
- Deixa de rir, porra, o assunto é sério.
- Sério porra nenhuma. Vai lá, cacete, fazer lifting de piroca. É rapidinho. O negocio é que na tua idade, né,basta uma enfermeira mais jeitosinha e lá vai ponto se abrindo, sangue jorrando, um horror.
- Nem fala, bota essa boca pra lá.
- Agora quem ta falando sério sou eu. Você faz a cirurgia na tranqüilidade, mas tem que passar uns dias com o companheiro morto. Nem uma alisadinha pode.
- Diz isso não.
- Digo. É assim, my friend.
- É foda.
- Pois é, nem isso.
Com o desespero aparente que só uma grande dúvida permite sentir, Calígula me disse que durante anos, Ju, a mãe de Calígulazinho, tinha pedido, implorado, oferecido recompensas indizíveis caso a Bastilha fosse instaurada na cama que ambos compartiam. Como todos nós sabemos, para Calígula aquela revolução pertencia a um futuro distante.
E de fato, alguns amigos mais escrotos e que sabiam da negação ao suborno oferecido por Ju, apontavam essa como a principal causa do fim do relacionamento. Os amigos que conheciam ambos sabiam que não.
Calígula temia a reação de Ju. Já não estavam juntos, não precisaria informar sua ex de nada, mas no fundo ele sabia que se ela descobrisse a briga ia ser feia.
Será que ela teria ciúmes do feito histórico da nova dona do território? Ela em 10 anos de casados não conseguira o que uma biscate lograria com um abrir e fechar de pernas. Calígula temia com razão.
Mas dessa vez, Calígula ia ceder. E percebi isso no momento que ele se sentou e me confessou: - Meu pau tá apaixonado. Não penso em outra mulher que não Suzana.
Dentro de mim contive o riso ao me imaginar perguntando a ele se Suzana por inteiro ou só, bem, vocês sabem o quê.
Hoje, passado uma semana da cirurgia, Calígula chega pra mim com entusiasmo e me diz:
- Rapaz, esqueci de te contar naquele outro dia. Saiu (sic) os primeiros pentelhos do Calígulazinho e o filho da puta ainda insiste com essa historia de que vai ser escritor quando crescer. Tá a fim de dar uns conselhos pra ele?
- Sobre os pentelhos ou... ah, já entendi.
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