
Em 2002 quando por aqui cheguei, coisas do primeiro mundo me assustaram.
Não o frio. Não o idioma. Não os biotipos.
As ruas limpas, sim. Mas o que mais sim, foi a ausência de mendigos.
Vá lá, moro numa cidade pequena. Suponho uns 60 mil habitantes.
Perto de Recife isso é fichinha. E talvez fosse até normal que morando na Europa, numa cidade pequena além do mais, isso fosse a regra.
Mas pra mim, era estranho.
Como assim não tem ninguém jogado no chão para que nossas retinas possam evitar?
Sei lá. Isso não pode ser normal. Mas podia.
E muita coisa mudou em 8 anos.
Eu mudei pra caralho. Eu nem me reconheço.
Me olho no espelho e me apresento quase sempre ao mesmo estranho todos os dias.
A cabeça, o cabelo, a barriga.
O jeito, a fala, a cabeça outra vez.
Sou eu mas não sou.
Normal, não é mesmo?
Mas será que eu sempre fui tão pessimista?
Saio pra dar uma volta.
O banco, que é banco em qualquer lugar do mundo, decora com esmero meu inferno astral. Mas pra lá me dirijo. Eu que sou católico mas não sou, como diria Kamila, ou melhor, com minhas palavras, sou o pior católico do mundo, tenho a indigesta idéia de que o inferno acaba sendo o destino de todo mundo. Por que não? Quem vai me dizer o contrário? Basta que deixe de existir céu. E meus amigos, "nos sinceremos", quem nunca cometeu um pecado imperdoável?
Fiquem tranquilos. Se acaso voces dêem por bater no inferno no final da vida ou no começo da morte, tenham a certeza de que um rosto conhecido hão de encontrar.
Na volta da minha volta, minha cidade, que há tempos eu não visitava, introduziu novas personagens em sua trama histórica de cidade milenar.
Em 15 minutos, 4 mendigos.
A mão extendida para a caridade.
E não é querendo ser ruim, não, como eu disse anteriormente, pro inferno eu já vou então não preciso de nenhum exame final com o tinhoso, mas não lhes soltei nem um céntimo. E fiz questão.
Suas mãos ao ar, suas plaquinhas suplicando atenção, me davam vergonha de suas juventudes.
Logo eu, mais um vagabundo, porém sem placa, porém com currículo, que não é o mesmo, mas quase é.
Onde se escondiam esses pedintes 8 anos atrás?
Por trás dos meus olhos?
Não vou ficar abestalhado por ver mendigos na rua, afinal, sou brasileiro.
Mas o que me espanta é que antes isso não existia, não nessa dimensão, nessa quantidade que não cabe no dedo indicador. Exagerando, eram fatos isoladíssimos e em geral praticados por imigrantes velhos ou doentes, ambos na antesala do inferno.
Não digo que eles escolheram a situação em que se encontravam, porém, os que vi hoje quase me permitem esse atrevimento. Imagino que nenhum deles sobrepassassem os 35 anos, e isso pesando a "cara de rua" que eles levavam no rosto.
Espero que no Brasil algum dia vejamos esse processo ao revés. Assim talvez alguém entenda por contraste o gosto ruim que senti essa manhã.
Porém me fica a pergunta:
Quem é pior hoje em dia do que há 8 anos, eu ou a cidade?
Ah, yuri, se eu deixar comentario nesse é pra brigar! kkkkkkkk
ResponderExcluirSe a gente pensar no começo de tudo e na causa de gente rica e gente pobre a gente se perde.
Em Madrid sempre teve gente pedindo, mas eu notei que tem gente nova. Gente ainda com a roupa limpa dizendo no metro que está desempregado e com três filhos morando na garagem. Gente nova tocando algum instrumento no metro, ou nas terraças, e tenho uma "leve impressao" que esse aumento está relacionado com o paro. Assim que, eu nao resisto e se tenho, sempre dou.
eu não dou esmola por costume. já estamos na estrada, meu amigo. te vejo lá!
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ResponderExcluirEu também estou desempregado. Dá dinheiro pra mim também... :(
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